Paul Otlet

Paul Marie Gislain Otlet

Em 1934, anos antes de Vannevar Bush sonhar com o memex, décadas antes de Ted Nelson conceber o termo “hypertexto”, Paul Otlet visionou um novo tipo estação de estudos: uma mesa móvel construída como uma roda, ligada por uma rede de raios de roda dobradiços sob uma série de superfícies móveis. A máquina permitiria que os usuários pesquisassem, lessem e escrevessem através de uma imensa base de dados mecânica armazenada em milhões de fichas 3×5.

Esse novo ambiente de pesquisa faria mais do que apenas permitir que os usuários recuperassem documentos; permitiria também a anotação de relacionamentos entre um e outro documento, “as conexões que cada documento possui com outros documentos, formando a partir deles o que se poderia chamar de Livro Universal”.

Otlet imaginava um dia em que os usuários distantes poderiam acessar a base de dados, através de um “telescópio elétrico” conectado a uma linha telefônica, recuperando uma imagem fac-simile para ser projetada em uma tela plana remota.

No tempo de Otlet, essa noção de rede documentária era ainda tão recente que ninguém havia nenhuma palavra para descrever essas relações, até que ele inventou uma: “links”.

Otlet também reconheceu a importância prática da “pesquisa e recuperação realizada por uma equipe permanente apropriadamente qualificada”. Substitua a palavra “Google” por “equipe permanente”, e a visão de Otlet começa a soar muito como a World Wide Web.

Apesar de ser um exagero aclamar que Otlet exerceu influência direta no posterior desenvolvimento da Web, não seria exagero dizer que ele antecipou muito dos problemas que estamos tentando resolver: a explosão da informação publicada, as limitações dos mecanismos de armazenamento e recuperação, a busca desesperada por um modelo classificatória que nos auxilie a armazenar, administrar e interpretar o capital intelectual coletivo da humanidade – e talvez, os limites dos sistemas de auto-organização.

Na encarnação atual da Web, “autores individuais” (significando tanto pessoas como instituições) mantêm documentos fixos, no qual eles exercem controle direto. Cada documento é essencialmente um fato consumado, com seus próprios conjuntos auto-determinados de relações com outros documentos. É necessária uma meta-aplicação como Google ou Yahoo!, para descobrir as amplas relações entre documentos (normalmente através da combinação de sintaxe, semântica e reputação). Mas essas relações, independente de quão sofisticado é o algoritmo para determiná-las, permanecem em grande parte indisponíveis para o usuário final, nunca se tornando uma parte explícita da história do documento.

Será que a rede de Otlet demonstraria algo diferente? Nós ainda teremos que descobrir. Com o advento da Web Semântica e tecnologias relacionadas como RDF/RSS, FOAF, e ontologias, nós estamos caminhando na direção de um ambiente onde o contexto social está se tornando tão importante quanto o conteúdo temático. A visão de Otlet carrega uma impressionante possibilidade: o casamento do determinismo das facetas com o relativismo das redes sociais.

No último livro de Otlet, Monde, ele articulou uma visão final do grande “réseau” que pode também servir como suas últimas palavras:

Tudo no universo, e tudo do homem poderiam ser registrado na distância em que foi produzido. Dessa maneira uma imagem móvel do mundo poderia ser estabelecido, um verdadeiro espelho de sua memória. De uma distância, todos poderiam ler textos, ampliados e limitados ao assunto desejado, projetado em uma tela individual. Dessa maneira, qualquer pessoa sentada em sua cadeira poderia ser capaz de contemplar a criação, como um todo ou em certas partes.

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